eis que estava sentada na minha nova poltrona próxima a lareira, tão quente, tão cômodo, tão quieto, tão perfeito lugar, a melhor das sensações, o melhor abrigo. longe do frio, da escuridão: e me deixei ser aquecida, me permiti ser confortada.
mas a lareira um dia, ainda frio, ainda necessária, passou a queimar violentamente, passou a queimar descontrolada e em seu ápice se apagou. a chama não estava mais lá, o conforto não estava lá, só eu, sozinha
fiquei ofegante de certo modo precisava de todo aquele calor, precisava ter meu corpo e minha alma aquecida, já fazia parte de mim.
mas não restava nenhuma chama, só água. proveniente da pior das fontes, dos olhos dolorosos e tristes, sofridos, taciturnos.
mas o choro não estava sozinho. trouxera consigo a escuridão, o frio de volta e um manto...
corri em direção ao manto pensando que ele pudesse me aquecer, mas o manto me revestiu e se grudou em mim, no meu corpo, no meu rosto e não me deixou respirar. desmaiei.
nesse desmaio parece que sonhei e eu conversava com a chama. a lareira estava lá mas parecia não estar e o fogo me explicava que não queria que eu me acomodasse com tanto calor se ele não poderia estar lá para sempre, se ele não seria reconfortante por tanto tempo, que passaria. tentei explicar que nem um furação ou uma simples brisa acabaria com essa chama, pois eu estaria lá independentemente do que fosse-me submetido, mesmo que o sol voltasse a aquecer os dias. mas ela não me ouviu e se apagou mais uma vez.
acordei.
tudo tinha acabado, estava sentada na poltrona, a lareira empoeirada como se nunca tivesse sido acesa e o sol reluzente vindo por uma fresta da janela. tudo estava lá, menos eu.
